Encerrado no último domingo (16), o Festival Psica concluiu em 2025 a maior edição de sua históriareunindo cerca de 110 mil pessoas em três dias e registrando um crescimento de 24% nas vendas em relação ao ano anterior. Muito além dos números, o evento reafirmou sua identidade ao apresentar o Brasil a partir do Norte, colocando artistas amazônicos e periféricos em posição de protagonismo.
Em entrevista exclusiva ao Linha POPque foi media partner do festival pelo segundo ano consecutivo, os criadores Gerson e Jeft Dias fazem um balanço da edição, falam sobre o interesse crescente do público de fora da região Norte, o reconhecimento do Um cachorro como Patrimônio Cultural Imaterial de Belém e os desafios de manter um festival desse porte longe do eixo tradicional.
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(Foto: Felipe Martins)
O crescimento constante do Um cachorro não acontece por acaso. Desde 2015, o festival amplia seu público ano após ano a partir de uma curadoria que nasce da vivência direta com festas populares, festivais de interior e a cultura periférica amazônica.
“Esse crescimento vem de uma proposta muito honesta e muito sincera. A gente faz um festival que dialoga com o que acontece no Brasil, mas sempre colocando o nosso tempero, que é o protagonismo local e a valorização da nossa cultura”, explica Jeft Dias.
“A gente conhece o que tem de melhor na periferia porque nasceu nesse meio, cresceu no meio das aparelhagens, das festas de interior. Não é algo pesquisado de fora, é vivido”completa.
Para Gérsonessa autenticidade se tornou um diferencial num cenário em que muitos festivais passaram a soar semelhantes:
“O público — tanto daqui quanto de fora — está buscando experiências mais autênticas. O Psica se destaca porque não tenta parecer outra coisa. Ele mistura identidades, culturas e referências de forma verdadeira, e isso cria pertencimento. Desde 2021, a gente percebe que o número de pessoas que vêm de fora praticamente dobra a cada edição”, acrescenta.
Belém no centro
O sucesso do Um cachorro também acompanha um momento de maior visibilidade de Belém no cenário cultural e turístico nacional. “Belém está vivendo um momento muito bonito. Tem artistas em fases importantes da carreira, grandes eventos acontecendo, e o Psica entra como parte desse movimento”observar Jeff.
“As pessoas querem conhecer Belém, e o festival acaba sendo mais um motivo para vir”, diz.
Gérson reforça que o evento virou uma porta de entrada para a cultura amazônica:
“Quem vem de fora não vem só pelo line-up, vem para entender esse território, essa forma de viver cultura. O Psica acaba apresentando o Norte para muita gente que nunca teve contato com isso”, comenta.
Patrimônio cultural
Em 2025, o Um cachorro foi reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial de Belémum marco simbólico que fortalece a relação do festival com a cidade.
“Esse reconhecimento ajuda a mostrar, de forma mais clara, o quanto o festival é importante para Belém, para o estado e até para o Brasil”afirma Jeff. “Ele fortalece a relação com o município, com a sociedade, e legitima um cuidado que a gente já tem com a Cidade Velha e com o patrimônio histórico”ele explica.

Aparelhagem Crocodilo no último dia de Psica 2025. Foto: @reiteixeirafotografia
Para Gérsono título amplia possibilidades futuras:
“Esse reconhecimento posiciona o Psica como uma das grandes expressões culturais do Pará. A gente ganha mais liberdade para criar, mais força para dialogar com o poder público e também para atrair parcerias que entendam o festival como um projeto cultural estruturante”, completa.
Curadoria, protagonismo e valorização do artista nortista
A curadoria do Um cachorro parte de métricas claras para garantir protagonismo local e não apenas presença simbólica. “Cada palco tem, no mínimo, 50% de artistas do nosso território, e eles ocupam horários de destaque”detalha Jeff.
“Mas isso exige responsabilidade: não é só colocar o artista ali. É investir, estruturar o show e garantir que ele esteja à altura daquele palco”ressalta.
Gérson complementa explicando por que essa mistura funciona de forma natural:
“A periferia consome cultura sem preconceito. Dá para sair de um show do Wanderlei Andrade e ir direto para o Jorge Aragão no mesmo palco, sem conflito nenhum. O Psica funciona porque a gente é esse público também. A gente faz o festival para pessoas como a gente”, conclui.
Os desafios
Mesmo após bater recordes de público e se consolidar como um dos principais festivais do país, o Um cachorro ainda enfrenta desafios estruturais profundos, especialmente por estar localizado fora do eixo tradicional de grandes eventos.
“O desafio financeiro é permanente. A gente está no Norte do país e, por mais que o festival cresça, isso ainda pesa muito. Fazer um evento desse porte aqui exige um esforço dobrado, porque os custos são altos e o acesso a recursos é mais limitado. A gente vem lutando para que esse problema diminua, para que um dia ele deixe de existir, mas, hoje, ele ainda impacta diretamente a forma como o festival é construído”, afirma Gerson Dias.
Além do orçamento, a logística aérea e as condições climáticas seguem como pontos de atenção constantes e imprevisíveis. “Nossa malha aérea é muito escassa. Qualquer mudança climática em São Paulo, um ciclone, uma tempestade, pode fazer com que o festival inteiro entre em risco”explica Gérson. “Se um voo é cancelado, às vezes a próxima opção só existe dois dias depois, quando o festival já acabou. Isso é algo que a gente precisa administrar o tempo inteiro”relata.

Gerson e Jeft Dias, criadores do Psica. Foto: @NayJinknss
Jeff complementa destacando que, apesar dos imprevistos, a equipe precisou agir rapidamente para evitar impactos maiores na programação.
“A gente chegou muito perto de um colapso logístico, mas conseguiu contornar quase tudo. Tivemos apenas um cancelamento de show por causa de voo, o da Viviane Batidão, e foi frustrante para todo mundo. Em outros casos, a gente conseguiu remarcar, realocar artistas, refazer toda a logística para que o público não sentisse o impacto”, explica.
O tempo reduzido de montagem também foi um dos principais obstáculos da edição 2025, como explica Jeff:
“No Mangueirão, a gente teve menos de cinco dias para montar toda a estrutura de um festival gigantesco. Isso é extremamente desafiador. Na Cidade Velha, além do tempo, existe a complexidade de estar na rua, num bairro histórico, convivendo com moradores. É um cuidado constante, porque qualquer erro afeta diretamente a cidade.”
Apesar das dificuldades, os criadores reforçam que o compromisso com o território segue inegociável:
“Mesmo com todos esses desafios, a gente escolhe continuar aqui, porque acredita na potência cultural do Norte e no impacto que esse festival tem para Belém”, conclui Gerson.
Impacto cultural, social e econômico que vai além do palco
Para os criadores, o Um cachorro não se limita aos três dias de evento. “O festival gera impacto na economia, no turismo, na formação de profissionais e, principalmente, na autoestima e no orgulho do nosso território”afirma Jeff.
“Ver as pessoas se reconhecendo nesse festival é uma das maiores entregas que a gente faz”, diz.

Foto: felipe_omartins
Gérson encerra destacando o caráter permanente do projeto:
“O Psica oficialmente dura três dias, mas, na prática, ele acontece o ano inteiro. Assim que uma edição termina, a gente já está pensando nos próximos movimentos, porque manter essa roda da economia criativa girando também é parte da nossa missão.”









